Tornozelo 

Era um dia de festa. Final de ano em uma casa que não era minha e não era tão pouco de quem morava ali ou dos convidados. Era uma casa com varanda e quintal com janelas de madeira e de escadas em Itaborai – cidade onde se passou uma cena delicada e esticada por mim por muitos meses imaginando um romance.
A cidade que fora pacata, fica longe da cidade do Rio de Janeiro. Ela teve seu auge por volta dos anos 2012 com a chegada de muitas empresas procurando alugar vários imóveis para serem escritórios e moradias de empregados de várias partes do país. Eram os alojamentos alternativos aos lares de quem vem de fora do estado para trabalhar numa grande obra. De engenheiro ao peão, Itaboraí se viu invadida para acolher os trabalhadores para a construção do complexo petroquímico. Enquanto o terreno era preparado – cerca de 5 mil Maracanãs – a vida se dava na cidade do entorno do futuro empreendimento. Lojas e restaurantes eram poucos e pequenos. Havia uma ou duas pousadas. Uma praça, uma Casa de Cultura ao redor de bares.
Não houve tempo , nem preparação da população para absorver tamanha demanda que chegava. O inchaço aconteceu.
Já era final de ano e como de praxe, as confraternizações aconteciam com a reunião de todos os funcionários para celebrar a chegada do Natal e a aproximação do ano novo. A preparação foi que grande e incluía alimentação e bebida, diversão, decoração e amigo oculto. 
A casa com quintal foi adaptada com uma cobertura de lona branca para proteção das pancadas de chuvas bem própria do verão nesea época do ano. Foi gratificante vê-la modificada acolhendo pessoas com gêneros, idades e gostos diferentes. Eu particularmente, indiquei a banda de rock, garantido uma boa noite de som ao vivo. Estava cansada de pagodes e sertanejos comumente tocadas nas festas da construção civil.
Minha animação para a decoração iniciou com a subida em uma escada. Estava de short e com um par de pernas à vista na pré-produção. Poucas pessoas participavam à tarde neste dia. As bolas multicoloridas penduradas no teto da casa mostravam a alegria do acolhimento. Cinco degraus me separava da realidade dos fatos. A cena que estava prestes a acontecer voltaria algumas centenas de vezes em minha cabeça ano após ano, até ser diluída de paixão pra uma amizade.
De repente, ouço uma voz na entrada da casa. O coração pulsou mais forte. Os ouvidos reconheceram aquele tom, Não estava nos planos uma queda naquele momento. A descrição se vangloriava. De costas para a porta da cozinha que dava pra sacada do quintal eu estava ouvindo a voz se aproximar junto com os passos.
Um tom que me agrada. Será mesmo que cheiro e tom de voz são determinantes para a atração ?Eu acredito plenamente que sim, assim como a inteligência e o humor também. 
A altura da voz chega cada vez mais perto e uma sensação de uma mão serena passando pelo meu tornozelo me aquece o peito. Mão que pensei ser possível atravessar por todo meu corpo, deslizou suavemente pela fíbula, este osso pontiagudo e exibido que sobressai no final da perna. 
Um degrau a mais para a esperança tola que não enxerga a diferença de um carinho e do tesão. Todo aceno é alimento sonhador. Como retribuir este gesto senão com um sorriso leve, certeiro e doce. E assim foi. Por sorte já estava mais perto das nuvens, me equibrando entre bolas multicoloridas e a paixão arrebatadora. 
Este prazer silencioso e único, eu quis que se repetisse. Passou em minha mente naquele tempo ser possível sentir novamente aquela suave mão no meu tornozelo. Por várias noites os dedos, a pele e o cheiro se ajeitaram em minha cama. A mente produziu cenas de desejo conjunto jamais vividas.Se aquele gesto foi esquecido por ele, foi eternizado por mim a partir dali. 
Não desceria daquela escada tão cedo. Outros me ajudaram a me passar as bolas. Eu ficaria mais perto do céu por muitos minutos levitando na sensação e na repercussão do gesto. Demorou aproximadamente um ano e meio para iniciar a descida da escada e poder dar a mão a um novo amigo. Certa vez ele me deu um imã que é uma flor branca e rosa desenhada e moldada delicadamente por um artesão de Minas que nunca irei conhecer. O tom de rosa da argila é de uma cor singular. Eu dedicada a aceitar a possibilidade que este amor pudesse ser expressado tenho-a colada na minha máquina de costura antiga. Ela me faz recordar que a transformação do sentimento é imprescindível para tornar possível a revelação do amor da forma que ele possa ser abraçado. De todas as impressões de paixão, essa é uma das que sorrio mais.

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Partr de nossas vidas é tentativas de acerto entre o desejo e necessidade dentro do tempo e ação que nos faz alcançar o que nos move. Reúno em pensamentos vários projetos possíveis e se não anotados em algum bloco para desenvolver as ideias, perco de vista e talvez volte a retê-las e desenvolvê-las ou soltá-las como balões de gás. 

O diário da perda de referência

Subtamente olhar e não reconhecer um lugar, alguém, um amor. Parece que ficou no passado eternizado e não se desmancha. Lá permanece o pertencimento de algo em um instante. O encontro que não se dá, as prisões de desculpas ritmadas entre cones e fitas zebradas. O concreto se expandido a cada dia, o muro construído do silêncio, a alegria  repaginada por mitos está no olhar dividido. A liga é fake. O antipesto da massaroca que se tornou a notícia. O óleo que lubrifica demonstrando que estamos no mesmo clima. Tá quente de um lado e frio do outro. 

A morte de ideais e sonhos. Um dia parece algo semelhante que se pensou construir. Mas os pássaros insistem livres como os olhares dos transeuntes que sorriem pela delicadeza do dia. Os espaços e tempo aprisionados nos compromissos. Que horas são ? Passam cachos grisalhos na minha frente. Uma voz feminina atravessa o parque e as crianças que correm não se importam com o trânsito feroz com buzinas e freadas.O que te faz parar e seguir? Escolhas e desistências. Um chão carregado de passos de todos os tipos. Um céu olhado e vasculhado por lunetas. Por onde há mais de se ir ? Curvas, entornos, sons de despertador em sonhos. Nada mais a acalentar de um dia passado. Foi e dói. Um parabéns ao longe lembra que é dia especial para alguém. Para muitos, pois nasceu uma vida que embala outras mãos. Durante a passagem que anuncia a noite, vejo cores e sons que me confortam e me sacodem desta prisão de descompromissos mal planejados. 

Um lugar, alguém, um amor. Traz à tona o tesão que se envereda e sacramenta: Aqui jaz um presente findando um mundinho frio e previsível. Merece gargalhadas. O esbarrão proposital, a liberdade do gozo levemente apimentado e semitonado entre as ondas e nuvens.  A neve da clara de ovos transbordando o pirex, a fala que é sacudida de alegria.

A máscara dos ideais e notas fiscais. Um dia se alcança algo semelhante ao que se pensou construir. Mas os pássaros insistem tristes como os olhares dos transeuntes que esquecem da delicadeza do dia. Os espasmos e as brincadeiras diminuem aos passar dos segundos. Que ano estamos ? Passam barbas na minha lateral. Uma voz masculina gargalhava escrachando os sinais que não conseguem parar os motoristas feridos nas suas entranhas e avançam.

O que te faz continuar e não vazar ?  Um pão e um vinho. Um céu amarelado e escondido por chapéus, oculos e FPS.  Calefação de um lado, ar condicionado do outro. Carrancas na proa deste caminho para proteger do mal. É e dói. Um pesames  bem de perto lembra que mesmo longe hoje é um dia especial para alguém morto e cremado. O corpo que se foi já embalou outros seres e abençoou a vida. Durante a viagem, a coloração do batom que anuncia a saturação demasiada para um dia claro e quieto que me aviva e me adormece nesta fantasia de compromissos parecendo festa.

Um disco arranhado volta às mãos. A pressa do garçom percebida no prato acompanhado de cor e beleza. A fala solta lida nos lábios dos que sentam um em frente ao outro. A conta. Há partilha. 

A caminho de casa, uma lembrança. O esquecimento do celular de relance,  não tardiamente fez  que eu me atentasse que algo importante pode perde-se de mim.

De um coração que bate acelerado nesta primavera de mineiros, de alcunhas e assassinato de rio.

O que vale garantir ? uma gestação ácida ou um Rio Doce ?

Afinal o que Vale?

O que conta?

Quem vai contra o real?

Em que conta está os valores que salvariam vidas?

E que parte da história interrompida será contada porque vale a pena?

Qual o valor da vida?

Quando se separará vida pública e particular? E o que a externalidade paga e assistimos não entendendo nada?

Mal damos conta da vida de um rio, de uma árvore e de um nascimento desejado.

Poucos se valem em manter saudável o meio ambiente.

Somente alguns se dão conta de o que vale é a verdade. Àquela que é mais que a sua e que agrega valor a muitos.

Quanto basta na conta de cada um? Todos são gananciosos ?

Vale o risco da detenção por mentira?

Um aborto por estupro, a vida perdida no lamaçal, a impunidade na corte.

Um ser obrigando um lar, o mesmo ser permanecendo no interior de uma casa sem merecer.

O poder másculo sobre as pernas arregaçadas. De que vale então o amor ? Não conta a dor?

A voz de soprano e contralto avançam na conquista da liberdade enquanto sedimentos de uma barragem rompida matam todo um ecossistema.

Aonde está a conta do final do mês e quem vai pagar? Qual a reflexão sobre as perdas
de famílias inteiras, agora sem pão, sem água e sem lar e trabalho ?

De que valem palavras usadas num microfone anacrônico ?

Qual o valor da palavra daquela que opta por querer ou não gerir, carregar e alimentar um futuro ser ? E que futuro as famílias com CPF terão, mas sem mais CEP ?

Minas. Mineração. 1 mineiro. Qual o valor de cada um para uma terra ?

À noite, quão duro é o travesseiro daqueles que detêm o poder ?

Na manhã que se inicia, quanto profundo é o pé que afunda na terra revirada de quilômetros de barro trafegando acidentalmente pelo mesmo poder ?

O ser que perde tudo permanece na terra impotente.

Alguém conta para eles que vale a pena ter fé e que a justiça se anuncia para devolver aos que são de paz, a glória da terra extirpada. Corre e diz a ele que eu não tenho paz enquanto ouvir o choro das mulheres silenciadas por vetos anunciados por quem rouba esta mesma paz. Conta para ela que a caminhada vem sendo dura, mas não será em vão. Que as flores irão algum dia brotar na casa debaixo da lama displicentemente descida mina à baixo. Calmamente, lembra à ela que se não brotar, eu vou levar as minhas flores que hoje cultivo do alto de um prédio, para mostrar que só nasce o que a mão deseja; mas que infortunamente, há na história dos homens, cofres públicos saqueados e cidades destroçadas por mãos que não vale a pena apertar.

10653 quilômetros 

Eu sinto que poderia conhecer. Intui há muitos anos atrás quando deparei com o olhar, mas intimidei. Depois de anos reencontrá-lo e senti uma atração foi um como se um tintilar me fizesse estar próximo, porém não me aproximei. Nem ele. Será que é tão tímido quanto eu ? Passei a observá-lo da maneira que podia, através das redes sociais. Ele fotografa, eu curto. Ele posta algo que me faz sorrir. eu curto. Ele mostra um grupo ou música que me deixa fascinada, eu curto. A retribuição é recíproca. Mais curtições do que comentários ou compartilhamento.  Nenhum chat, nenhum algo que venha a desenvolver algum papo. E eu desejando. E eu absorvendo o que é possível e o que tátil. Eu tenho praticamente uma diferença grande de fuso e uma grande distância. Mas tenho imensa vontade de encontrá-lo talvez pelo mesmo tom de percepção. Ele também, eu sinto. Ele fala pouco mas fala bem. Discreto e contido. Vago a mente em nosso encontro singular caminhando entre as árvores com o chão repleto de flores. O silêncio cortado pelos passos lentos pisando nas folhas secas. O som que quebra corações e distâncias. Nosso olhar ao nosso alcance. Um abraço antes do beijo. O nosso sorriso antes e depois. A viagem se finda.  Hora do adeus – até logo. Guardo a pergunta de Quando voltarás… Amores certos sabem da importância de se viver o agora. O reencontro? Bem,  o reencontro terá uma bela estória.

O DI MENOR : Proposta de Emenda à Constituição que reduz de 18 para 16 anos a maioridade penal

O dimenor é aquele  que quando faz contravenção tem tratamento  diferenciado pelo Estado. Agora é a bola da vez. Uns querem  encher de grades ao seu redor até ele aprender que não deve matar por fome e nem roubar para cobrir seu frio.

Na sua casa ou na escola – que deve ter tido durante algum tempo –  sua opção era matar a fome e colar na  prova.

A saída para alguns é a aprovação da votação da PEC  que penalizará  os menores com prisão e  pela sua lógica, a obtenção  das ruas livres de violência. Quem urra por esta opção não imagina que outros moleques irão ocupar as mesmas ruas que outrora eram dos adolescentes instalados agora em celas. Mais lei prisional aumentará o número de cárceres e ainda, não haverá melhoria na qualidade de vida.

Se as pessoas que gritam e esbravejam frases ainda nas redes sociais e nas mesas dos bares tipo: “Tá com dó leva pra casa” ou ” Fala de declaração dos direitos humanos porque não perdeu nenhum parente” são ingênuas porque acreditam que a qualidade de vida é individual, . 

Há alguém que viva isolado?, sem conexão alguma com o mundo ou com alguém ao seu redor ? Então constatamos que vivemos em sociedades e que qualidade de vida é um todo. Dentro da premissa que só vivemos em um planeta e que qualquer ação atinge diretamente ou indiretamente todos os habitantes é inimaginável acreditar que sistema prisional abarrotado significa qualidade de vida. O melhor índice de desenvolvimento humano deveria estar intrinsecamente  linkado com o número de pessoas livres e felizes. Aplicar o índice de felicidade (FIB) como um retrato da sociedade brasileira revelaria pontos essenciais  do bem social em contrapartida ao PIB que mede a produção de bens. O que de fato ocorre é que um país se baseia que na medida que cresce o índice de bens produzidos, mais ele está progredindo. Progresso ainda está atrelado à falsa ideia de desenvolvimento e  que crescimento  está relacionado à sustentabilidade.  Isso não é bem uma verdade já que não mede por exemplo: se os produtores desta economia estão participando de decisões em seu local de trabalho, se sentem suas opiniões incluídas nas mudanças realizadas no local onde vivem,  se teem acesso  à direitos e estão  cientes de deveres para citar um dos vários itens dos Felicidade Interna Bruta. Alguns pensadores indicam o FIB como uma ferramenta revolucionária para medir como o cidadão se sente vivendo naquele momento priorizando a riqueza não produzida mas o seu rendimento e o acesso aos bens produzidos, o sentimento de segurança e a voz como cidadão. Mesmo entendendo a felicidade como algo subjetivo, há possibilidade de  planos de ações com dados da pesquisa nas categorias . Deixo aqui para os mais curiosos, o link do World Database of happiness, criado com o objetivo de juntar num mesmo local toda a pesquisa científica sobre a felicidade. http://worlddatabaseofhappiness.eur.nl/hap_pub/pub_fp.php

Com relação a redução penal, a primeira impressão é que seria uma saída de prosperidade. Mas o fato é que “limparia” a priori as ruas de menores infratores condicionando-os a um depósito humano onde ingerirão mais agressividade e infelicidade. De fato, uma parcela de brasileiros acredita ainda, que o lixo deva sumir da frente deles. É como se uma ação de ajeitar rápido a sala colocando o pó para debaixo do tapete melhorasse o ambiente. A transferência do lixo que produzimos não significa solução, nem tão pouco  sabedoria. E acredito mais, que devemos parar de pensar que há soluções. Há caminhos, isso sim. Nada é definitivo. Se continuarmos a pensar na ilusão do desaparecimento daquilo que nos incomoda por um toque de mágica e empurrar a responsabilidade para alguém ou para outro local estaremos simplesmente nos negando a conquistar resultados  mais positivos com ações contínuas a longo prazo. 

A bandeira, o sinal e o apelo da não redução da maioridade penal está na mão de uma grande parte sedenta de amor por este país e é apenas uma bandeira, um sinal e um apelo de uma parcela significativa de habitantes de uma nação.

Possivelmente para alterar essa dura realidade, precisaremos estar conectados com as entidades ligadas à proteção à criança, adolescente e jovens, além de cobrar dos governantes e dos parlamentares eleitos. Temos que rever o que fazer.  Tomar pra nós cada cidade em que vivemos enquanto cidadãos pensantes e não só esvoaçar as saias e gravatas pelo vento de nossas ruas. 

Quais as ações inovadoras, quais caminhos tomar ou retomar? Quem se habilita a pensar na gestão desta crise ?  Seres empresariais, seres individuais, seres em Oscips ou Ongs ou em grupos simplesmente?

Saber que os governos são sazonais e periódicos. Somos nós que vivemos na cidade que, até mesmo com título de maravilhosa, percebe e quer alterar sua qualidade de vida para não ter medo de andar nas ruas ou andar de bicicleta ou caminhar à noite pelo seu bairro. 

Este desejo é muito legítimo. As mudanças são estruturais não são fáceis mesmo. Porém, não podemos cair na tentação da “solução” rápida.  Temos que deslumbrar mudanças de hábitos e de cultura e largar mão do fastfood. Podemos atentar que o lixo que produzimos não desaparece só porque foi pra algum lugar onde não se vê.  Ele é tratado, cuidado e alguns reciclados. Devemos admitir que nossas ações perpetuam ciclos anacrônicos que nos tornam co-responsáveis por meninos e meninas que andam pelas ruas esfomeados e raivosos. E não esquecer que fomos meninos e meninas!

Percebo que é possível um trabalho longo, profundo e sério. Talvez nem eu, nem você estaremos aqui para ver a beleza da qualidade de vida desta cidade, mas ela necessita ser pensada comungando opções sustentáveis.

Cada um no seu ofício, cada um com sua maestria podemos iniciar um vôo.

  

Prelúdio de uma decepção 

A fé que  fica num canto à espera de  novamente ser requerida.

A fé que pelo jeito é questionada e desacreditada.

Estacionada num ponto qualquer, repara as verdades ditas. Os pontos de vista. 

Rejeita dúvidas.

É lembrada em casos difíceis e quando se quer  ter uma solução imediata.

A fé abalada faz qualquer um andar à esmo.

A fé perpétua os que não questionam. Faz parecer a imagem  de um algodão doce rodando infinitamente na vareta  que não é de condão. Um leve toque da saliva dissolve a poderosa forma rosa e torna-se a realidade açucarada e enjoativa. Os que se refugiam neste ponto impalpável são quase santificados e imunes à decepção.

Simplesmente aceitam e aguardam dia após dia, ano após ano. Nada ainda acontece que altere o cotidiano.

Outras opções surgem como trilhas mas são desprovidas de plenitude. A fé questionada é interpretada. 

A realidade das rugas mostra que o parecia ser possível, não passou de ilusão.

Uns dirão: foi falta de fé, outros riram e dirão: não era pra acontecer.

A absolvição da fé.

Os advogados da fé falarão que aconteceu da forma que tinha que acontecer.

A fé diluída durante a espera .

A desilusão arrancando as máscaras. Há a dor. Há a dissolução do tempo passado.

Há quem perdoe a si e ao próximo. Ao futuro ilusório e ao passado doente.

Vida é pra ser vivida diariamente. Definir sonhos e ter fé. Reconhecer os possíveis sonhos e dar metas e resultados. Rever os sonhos. Relativizar a fé. Não aguardar nada. Não se espantar. Permitir que haja liberdade sem culpa, sem cobrança. Perceber e viver uma fração do relógio e não rever a hora. Saber planejar apenas pra garantir a reserva da mesa que talvez terá lugares vagos. Entoar que haverá possibilidade. Torcer, vibrar e ter fé.

A fé, monossílabo feminino que não parece ter ponto de chegada.  Um gap entre desejo e realidade. Um perigoso jogo que sugere força e lembra ansiolítico. Prima da ocitocina e irmã da crença em concretizar um desejo. 

Há fé afinal ? Ela é o placebo da pseudoalegria. Um estimulante. Uma ritalina.

Alguém disse: Eu tenho fé que um dia eu não ache mais a fé. ” Perdê-la significará a liberdade do futuro e a paz com o passado.